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domingo, 14 de março de 2010

Sob-viver


A gaiola poderia representar segurança, se não fosse destinada a aprisionar uma liberdade.

No compasso de minha rotina levantava-me, e num corre-corre pulava eu de galho em galho para fazer tudo o que esperavam de mim. Dava-me por feliz em ter o dever cumprido e perceber as caras de satisfação dos meus. Vez por outra, os detalhes que desapercebidamente passavam por meus olhos imaturos, tornavam-se motivo para as mais absurdas condenações, e que a pena – sempre – estive a cumprir. Não sentia ódio, não esboçava nenhuma reação... Às vezes aquela teimosa lágrima deixava-se rolar, perdoava-a por esta fraqueza, mas não admitia que ninguém a visse. Não orava, não pedia ao deus por mim, certamente não me daria ouvidos, Ele já havia feito muito dando seu filho, o que mais se poderia querer? Então cantava crente que me espantaria os males, me embalaria o sono, o sonho e assim era sobreviver. Sob-viver...


Vanessa Rodrigues


Um comentário:

Eliéser Baco disse...

Formosa cadência com que tece essa substância incrível que é o olhar do eu-lírico. Um marear tão absoluto que se forma de uma nota breve, ritimada por pausas interessantes entre vírgulas, a pontuar a leitura dando-lhe nocão exata da emoção a ser sentida, pouco a pouco.